quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O SAPO NÃO LAVA O PÉ!



Muito tempo e pouca coisa pra fazer. Ups, ao contrário! Aí quando vivo dias assim, me boicoto e empurro tudo o que tenho que fazer para alguma vala de tempo em outra dimensão (que eu acredito que vai existir entre as 5:15 e 5:40 por exemplo), e fico lendo alguma bobeira na internet. Essa aqui é velha, mas acho tão divertida..


Olavo de Carvalho:
O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos da educação e da higiene!

Marx:
A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.

Foucault:
Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé – bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas – domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível – é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.

Weber:
A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lava-se o sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo – a vida na lagoa.

Nietzsche:
Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a “dolcezza” audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida – e difícil – fronteira entre o Sapo e aquele que está por vir, o Além- do-Sapo: a lavagem do pé.

Filmer:
Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa. Sendo o sapo um descendente do sapo ancestral, é legítimo, obrigatório e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e infração.

Locke:
Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.

Kant:
O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de agir segundo sua lei moral universal ‘apriorística’, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.

Freud:
Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.
Jung:
O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.

Sartre/Kierkegaard:
O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência. O sapo é um ser livre para escolher se quer ou não lavar o pé.

Hegel:
Podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo – em relação à higiene – para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso.
Comte:
O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.

Schopenhauer:
O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a que a sabedoria vedanta chamou "véu de Maya". A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: "O mundo como vontade e representação".

Platão:
O sapo que vemos é nada além da corruptela do sapo ideal, que a alma conheceu antes da Queda. O sapo ideal lava seus pés eternos com esponjas imutáveis, num mundo sem movimento. O sapo imperfeito, porém, jamais lava os pés.
Aristóteles:
O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.

Epicuro:
O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.

Estóicos:
O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.

Descartes:
nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a auto-conservação, como um relógio precisa de corda.
Maquiavel:
A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o que poderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este o respeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália, atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os sapos da Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso não aquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço de tal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um pai assassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.

Rousseau:
Os sapos nascem livres, mas em toda parte coaxam agrilhoados; são presos, é certo, pela própria ganância dos seus semelhantes, que impedem uns aos outros de lavarem os pés à beira da lagoa. Somente com a alienação de cada qual de seu ramo ou touceira de capim, e mesmo de sua própria pessoa, poder-se-á firmar um contrato justo, no qual a liberdade do estado de natureza é substituída pela liberdade civil.

Horkheimer e Adorno:
A cultura popular diferencia-se da cultura de massas, filha bastarda da indústria cultural. Para a primeira, a lavagem do pé é algo ritual e sazonal, inerente ao grupamento societário; para a segunda, a ação impetuosa da razão instrumental, em sua irracionalidade galopante, transforma em mercadoria e modismo a lavagem do pé, exterminando antigas tradições e obrigando os sapos a um procedimento diário de higienização.

Gramsci:
O sapo, e além dele, todos os sapos, só poderão lavar seus pés a partir do momento em que, devido à ação dos intelectuais orgânicos, uma consciência coletiva principiar a se desenvolver gradativamente na classe batráquia. Consciência de sua importância e função social no modo de produção da vida. Com a guerra de posições - representada pela progressiva formação, através do aparato ideológico da sociedade civil, de consensos favoráveis– serão criadas possibilidades para uma nova hegemonia, dessa vez sob a direção das classes anteriormente subordinadas.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Carol fez um blog[1], \o/. Fiquei bem contente porque assim, quando ela postar, acompanho um pouquinho de suas aventuras nova-iorquinas e do que vai passando pela sua cabeça. Sinto saudade. Dela e de todas as pessoas, até de quem estou cansada de ver.

Vamos ao “ninguém me ama”, que na verdade é um “ninguém me ama mais”:

Sou paranóica, mas não sei se o suficiente (!). Vivo investigando as razões pelas quais acredito que as pessoas vão embora.... Esses dias eu e o Mártin levantamos uma delas: humor ácido. Não acho engraçado muita coisa, pouco chato isso? Não achar engraçado o que os outros acham? Em compensação, existem algumas coisas realmente engraçadas nesse mundo, hahaha... Outra coisa é que não gosto do “mundo adulto”, não vivo nele e sei que estou errada mas às vezes não consigo deixar de ridicularizar. Não gosto de pose, mas já tenho consciência que isso é discriminação, então um dia vou melhorar (déééve)... O Rafa disse que as pessoas podem se importar com coisas como “tchaus” no msn, que eu muitas vezes só fecho. Na vida “real” se não precisasse dizer ´oi´ e ´tchau´ eu ia adorar. E se for pensar viu... quanta bola fora. Dei um gato, vivo, de presente de aniversário pra Fernanda. Ela queria um! Poutz!

Vou repensar aquela história de “eu seria minha amiga”. uhauahuah..

Mas a Carol (já que comecei falando dela), falava que não são defeitos, são características. E algumas pessoas gostam de mim assim mesmo (poucas, hahaha). E talvez gostem justamente por causa disso.

Então vou fazer um esforço (grande), pra fugir da paranóia e lembrar de algumas coisas como quando eu e ela estávamos andando pra qualquer lugar, pra um shopping por exemplo, nos olhávamos e “vamos correr?” – E corríamos até cansar (meia quadra). Aí seguíamos caminhando normal.


[1]
caroleculture.blogspot.com


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Vou tentar manter vivo aqui. Mas meu amigo... o crime não tira férias.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Ela só quer, só pensa em...

DESCANSAR.





Era nisso que eu pensava quando vi esse desenho do Chico Bela, logo depois de ter lido trechos de um livrinho muito criativo.
De Bob Black, "A Abolição do Trabalho":
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Nunca ninguém deveria trabalhar.
O trabalho é a gênese de grande parte da miséria do mundo, é causa de muito do mal que acontece. Somos obrigados a viver sob o seu desígnio. Para acabar com o sofrimento, temos que parar de trabalhar.
Isto não significa que tenhamos que desistir de fazer coisas. Mas sim, provocar uma revolução jocosa, uma nova onda de vida baseada no divertimento. Por divertimento entenda-se festividade, criação facultativa, convívio. O divertimento não é passivo, é muito mais do que o jogo das crianças.
Invoco a aventura colectiva num prazer generalizado, numa exuberância gratuitamente interdependente. Necessitamos de mais tempo de pura preguiça e descanso indiferente ao salário ou à ocupação. Reparem, uma vez saídos do emprego quase todos nós queremos representar, o que conduz ao esgotamento.
Oblomovismo e Stakhanovismo são dois lados da mesma invenção humilhante. Uma vida jocosa não é compatível com a realidade. O pior, é a maneira de encarar a vida como mera sobrevivência. Curiosamente — ou talvez não — todos os antigos ideólogos são conservadores porque crêem no trabalho. Alguns, como os marxistas e a maior parte dos anarquistas, crêem nele porque acreditam em pouca coisa.
Os liberais dizem que há que eliminar a discriminação no emprego. Nós dizemos, há que acabar com ele. Os conservadores apoiam o direito ao trabalho. Imitando o travesso genro de Karl Marx, Paul Lafargue, apoiamos o direito à preguiça. Os esquerdistas são a favor do emprego permanente. Nós estamos a favor do desemprego iminente. Os trotskistas agitam-se por uma revolução permanente. Nós debatemo-nos por uma orgia latente.
Todos os ideólogos que defendem o trabalho são estranhamente relutantes em confessar que o fazem em seu próprio benefício. Sempre preocupados com o salário, as horas, as condições de trabalho, a exploração, a produtividade, a rentabilidade, estão dispostos a falar, mas sobre o trabalho. Estes peritos que se oferecem para pensar por nós raramente partilham as suas consusões sobre o trabalho, projectando-nos assim a vida. Até lançam larachas uns aos outros sobre particularidades. Sindicatos e administrações embora hesitantes sobre o preço, concordam que temos que vender o tempo da nossa vida em troca da sobrevivência.
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Esse Black deve odiar o Candido, do Voltaire. Eu gosto.
Mas não gosto de trabalhar não. hahaha..

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A maldição da Copa das Confederações

Nunca entendi a mágica do esporte, e não foi por falta de tentar. Não desisti ainda, é claro. Fico sempre criando novas explicações para ver se me contento com alguma. Já acreditei em teorias (ou criei teorias que nasceram desacreditadas), de todos os tipos. Houve as culturais, as psicológicas, as econômicas... Algumas (quantas) meio socialistas, como a idéia de desviar o foco e destruir a capacidade de organização dos trabalhadores, e por aí vai. Porque eu simplesmente não entendo, e não é uma questão fácil essa. Por que as pessoas torcem pra um time que não tem nada a ver com elas, e gastam seu tempo, dinheiro, energia com isso? O que significa torcer? Isso é da natureza humana, “torcer”? Eu defendo o meu, você defende o seu? Não. E sabe... De onde encontram vontade de ver o pré-jogo, o jogo, o terceiro tempo, os gols no jornal, o programa de esporte, e o outro programa de esporte? Por que é que vende tanto isso, hein? “Jornalismo esportivo”. Não estou falando mal, nem fazendo críticas. São indagações - eu queria saber o que é que move isso, por que é que isso existe. Todo dia de semana a TV está ligada na Glenda de meio-dia. Como é que tem tanto assunto? Existem canais que falam o tempo todo só de esporte! Isso me choca, sabia?

A única coisa que tenho conseguido pensar, em relação a isso, é que é o assunto mais democrático que eu conheço, o esporte. Nele todo mundo é igual, não existe o flamenguista pobre e o rico, existe o flamenguista. E ao mesmo tempo em que aquele professor universitário mega-power-intelectual-pós-doutor vibra na frente da TV, um piá pançudo metaleiro abre uma cerveja, e o representante comercial solta um foguete, e assim por diante. E eles poderiam inclusive conversar entre si sobre isso, de igual para igual. Não consigo pensar em outro assunto em que isso fosse possível.



quinta-feira, 2 de julho de 2009

A culpa é da mãe!

Papo de frequentador de terapia ou análise, com outro frequentador de terapia ou análise, sobre isso, parece uma série de absurdos pra quem não é “desse meio” (haha).
Esses dias tagarelava com uma amiga sobre o que a mãe tem a ver com nossos problemas emocionais, de socialização, de personalidade. Tudo, oras. Se não fosse a mãe, quem sabe até mais paz no mundo das misses ia ter (!).


Veja só: Você está lá no único lugar perfeito e em completa e absoluta paz e harmonia: o útero. É quentinho, super confortável, você não precisa fazer nenhum esforço, nem pra respirar ou comer... Nem sabe o que é esforço. Tudo é uma delícia. De repente, começa uma coisa desconfortável e... sua mãe te expulsa de lá!!!! Sem mais nem menos, ela te joga em um lugar frio, em que você precisa fazer muito esforço e respirar e fazer cocô e tudo mais, senão você... morre. Já pensaram no trauma que é nascer? Nada na vida é comparável. E é a mãe que nos faz passar por isso! Ok, o único conforto então é mamar! É ali que você encontra confiança. É mamando que sua existência tem um pouco de sentido. E aí, o que acontece uns meses depois?? A mãe te impede de mamar!! Não sei como sobrevivemos a isso.

É trauma demais.












terça-feira, 16 de junho de 2009

Os filtros da realidade

Estamos separados da realidade por filtros ou ligados a ela por mediadores? Todas as reflexões sobre a ciência são paralisadas pela dominação de uma certa metáfora óptica: imagine que o cientista dirija seu olhar a esse objeto, imagine filtros diversos que aí se interpõem -conceitos, representações, pressupostos, paradigmas. A partir dessa metáfora fundamental, cria-se a seguinte alternativa: ou se tentará apreender o mundo tão diretamente quanto possível -sem filtros, sem tendenciosidades, sem prejuízos- ou, pelo contrário, dever-se-á sempre admitir a presença, entre o espírito humano e a realidade, de filtros de diferentes cores que deformam definitivamente a apreensão. No primeiro caso, procurar-se-á, por meio de uma série de exercícios de autocrítica, desembaraçar-se dos prejuízos que turvam a visão, a fim de obter uma noção exata das coisas, o que é, a grosso modo, a solução do empirismo.No segundo, aprende-se, pelos esforços do ascetismo, a aceitar os limites que a prisão de nossas categorias sempre imporá à nossa consciência; essa é, para simplificar, a solução de Kant: as coisas em si permanecerão eternamente desconhecidas.

Metáfora do olhar

Não se evidenciou suficientemente que os defensores das duas ramificações da alternativa concordam em um ponto fundamental: todos aceitam que quanto mais intermediários entre o olho e o olhar, menos acesso se têm às próprias coisas. Mas é apenas a metáfora óptica que nos obriga a aceitar esse ponto. O grande inconveniente dessa metáfora é que ela torna quase impossível a compreensão da história e da sociologia das ciências (1). Se, de fato, seja como historiadores ou como sociólogos, insistimos na existência dos laboratórios, sobre o problema do dinheiro, que sempre se coloca aos pesquisadores, sobre a dificuldade de precisar instrumentos confiáveis, sobre a natureza limitada dos métodos de cálculo, enfim, sobre a cultura material das ciências (2), os leitores irão em seguida acreditar que juntamos filtros e mais filtros e que nos afastamos ainda mais do contato direto com a realidade. Quanto mais os sociólogos e os historiadores insistem no número de etapas a superar para que um pesquisador conheça, mais eles enfraquecem, assim se acredita, a solidez da verdade científica. Ao nos apoiarmos na metáfora óptica, o resultado é de fato inevitável: juntar intermediários não pode fazer outra coisa que não enfraquecer o realismo das ciências. Felizmente, nada prova que a metáfora do olhar seja a única possível. Tentemos antes considerar os intermediários não como filtros que se interpõem entre o olho e o objeto, mas como meios que permitem, ao contrário, chegar a ele. Ninguém diria que uma pista de aterrissagem no meio de uma floresta é um filtro que impede o etnólogo de chegar ao seu ponto; dir-se-ia, ao contrário, que, sem essa pista, ele jamais poderia entrar em contato com aqueles a quem estuda.E é exatamente isso o que acontece com a maior parte dos intermediários que a comunidade científica abundantemente multiplica: eles permitem a existência mesma dos dados. Sem os paradigmas, sem os conceitos, sem os instrumentos, sem os laboratórios, nada de fatos e, assim, nada de ciência.

Conhecer com certeza
Para usar positivamente todos os instrumentos que os historiadores e sociólogos acrescentam cada dia às condições da prática do cientista, é preciso que alteremos a metáfora, fazendo-a sofrer, se assim podemos dizer, um movimento de báscula da vertical para a horizontal: os intermediários não são mais os véus diante de nossos olhos que nos impedem de apreender a realidade tal como ela é; são as traves que estendemos sob os nossos pés para chegar ao real!A diferença entre as duas metáforas é total: na primeira, era preciso se desembaraçar de todos os filtros antes de desfrutar de um conhecimento exato; na segunda, é preciso multiplicar os meios, ou melhor, os mediadores, a fim de poder conhecer com certeza.
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Notas:
(1) Falo aqui das ciências e não da ciência que persegue um objetivo político de eliminação da política, o que não tem qualquer relação com o que aqui nos interessa. Veja meu último artigo na Folha, de 2 de novembro.
(2) Ver o notável trabalho de Peter Galison, "Image and Logic - A Material Culture of Microphysics", The University of Chicago Press, Chicago, 1997.

Bruno Latour é sociólogo e pesquisador da ciência francês, autor, entre outros, de "A Vida de Laboratório" (Relume-Dumará) e "Jamais Fomos Tão Modernos" (Ed. 34). Ele escreve mensalmente na seção "Autores", da Folha.
Tradução de Jesus de Paula Assis
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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Por que algumas pessoas não gostam de cães? Tento, mas não consigo ver isso como “cada um, cada um / é questão de gosto...”. Pra mim, quem não gosta de cães é uma pessoa amarga ou, no mínimo, que não sabe demonstrar e nem aceitar carinho. É impagável assistir ao Rafa (marido) imitando a Wilma (basset hound). O que é melhor do que passar tempo juntos, esparramando carinho naquela piazada que só quer isso? Eu posso saber (e isso é tão bom), que eles sempre vão querer meu carinho e que, se eles tiverem só um pouquinhozinho disso de mim, vão me amar muito, vão me considerar a pessoa mais perfeita e inigualável do universo!! Cães são formidáveis! Por isso gasto dinheiro com eles sim ué, se eu não gastar com o que me faz feliz vou gastar com o quê, roupas caras? Pfff...
Então aqui vai, os futuros muitos bebês cãezinhos que chegam nesse fim de semana, na TV da doutora!